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quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O velhido da moda


Você já leu o livro O Capital, de Karl Marx? Muito grande e antigo? Bem, grande pode até ser, antigo também, mas a obra escrita em 1867 está mais na moda do que nós pensamos.

A venda do livro vem crescendo muito após o estouro da crise financeira mundial, que desorganiza bolsas de valores mundo afora e preocupa governos. Claro, não esperamos que O Capital seja best-seller no Brasil (talvez nem seja a proposta), onde a educação ainda precisa ocupar um campo bem maior, mas o fato é que estão lendo e discutindo mais os escritos de Marx para tentar compreender o que está acontecendo e para onde vamos. Esse aumento do volume nas vendas começa na Alemanha, país de filosofia robusta.

Há quem compare o momento de desgaste do setor bancário à queda do Muro de Berlim em 1989. Vinte anos após celebrar a vitória sobre o socialismo, o capitalismo sofre um golpe que pode significar o fim do modelo (do modelo, não da civilização).

O clima é instável e transmite medo. Afinal, a incerteza nunca foi bem vista pela humanidade. A fase, porém, pode remeter a uma nova sociedade, com hábitos diferentes, talvez até com afinidades mais próximas dos anseios humanos (leia a crônica O Iluminismo II).

A edição do último domingo do jornal O Globo publicou uma entrevista com Ignacy Sachs, economista fraco-polonês apontado como o criador da expressão "crescimento sustentável" (muita gente emprega o termo sem mesmo compreender o significado: crescimento econômico aliado ao respeito ao meio ambiente e à justiça social).

Sachs acusa o neoliberalismo de há 30 anos impor arrogância à sociedade. Segundo ele, os princípios da liberdade econômica pôs abaixo a idéia de "pleno emprego, Estado atuante e planejamento". "Estamos condenados a inventar", acrescentou.

Há poucos dias o presidente francês Nicolas Sarkozy se mostrou interessado em reunir líderes para discutir a refundação do capitalismo, o que já está sendo compreendido pelo país carro-chefe deste modelo de produção. Os Estados Unidos já perceberam que não podem mais manter o vigor sem ajuda, sem cooperativismo e parceria com outras nações.

Na mesma página em que saiu a entrevista com Sachs, O Globo publicou uma entrevista com Parag Khanna, assessor de Barack Obama, candidato à presidência dos Estados Unidos. Nela, Khanna reconhece que a política unilateral acabou e que a saída dos EUA é o diálogo com regiões diversas, incluindo a América Latina, a Europa e até países como o Irã.

O Brasil tem muito a oferecer. Durante um debate contra Obama, McCain disse que a tendência é o país dele aproveitar cada vez mais o biocombustível brasileiro, mais barato do que o estadunidense. O valor das nossas terras, as águas, o potencial de crescimento vai ficar na mira do mundo. Assim, debates afloram, como a soberania sobre a Amazônia e as condições de trabalho de quem serve à indústria da cana-de-açúcar.

É imprescindível que a sociedade civil faça parte deste debate e evite que apenas os governos tomem atitudes. Hoje em dia, a nossa renúncia em participar da política privatiza esta atividade, que regula a vida, as relações humanas, as instituições. O erro não pode se repetir com os temas que vem chegando. Precisamos nos posicionarmos e discutirmos o ambiente em que queremos viver.

A leitura de O Capital não é exigência primeira para compreender o mundo e saber o momento de interferir nele. Um sinal de que chegou a hora da interferência é quando respondemos "sim" à seguinte pergunta: tenho mais parceiros profissionais do que AMIGOS- com letras maiúsculas?

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