"Melhor do que ler a coluna do Veríssimo num domingo ensolarado de manhã, esperando a chegada do café para pular na piscina, é ler o Letras e Harmonia a qualquer hora em qualquer lugar", Zé- operário.



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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Um certo alimento

Três moradores de rua jogavam dama na mesa central da praça da cidade. Às 21h do dia 31 de dezembro, zeca, josé e chico faziam o mesmo que faziam o ano inteiro. Nada especial. Eles eram tão tradicionais na localidade quanto o padre e o delegado.

Constantemente bêbados, inclusive para tapear a fome, recebiam comida em determinadas datas, como na Páscoa, no Natal e no próprio reveillon. Também esporadicamente ganhavam roupas e cobertores. Os doadores costumavam ser as figuras mais conhecidas e destacadas da cidade, como um vereador ou outro, um comerciante, o casal playboy, o contador e o pequeno fazendeiro. Agiam assim mais pela notoriedade e como meio de minimizar os podres praticados nos bastidores. Nada muito nobre.

Depois de perder quatro partidas de dama seguidas, zeca quis sair da brincadeira. "Estou de saco cheio". josé insistiu para que o amigo continuasse. "Se a gente não jogar, vamos dormir. Não temos muitas opções." zeca não se convenceu.

- Estou cheio, não só da dama, mas de tudo isso. Cheio desta cidade, desta gente... Para vocês está tudo bem?

- Ótimo, tudo ótimo- rebateu chico.

- Parem com essa discussão. Se for o caso, vamos nos distrair com outra coisa. Que tal a gente ir à cachoeira agora?

Antes que alguém pudesse responder à sugestão do josé, o Dr. Arthur se aproximou, chamando a atenção dos três. Arthur era um tradicional político da região. Foi vereador por alguns mandatos, prefeito duas vezes, deputado estadual e federal, além de candidato a vice-governador. Naquele momento, ele estava sem mandato. Há três anos fora cassado, acusado de desvio de dinheiro na prefeitura. De qualquer forma, exercia pleno poder, influenciando muita gente e com livre abertura na prefeitura, cujo titular era do grupo do próprio Dr. Arthur.

De personalidade forte, ele era alto, bem gordo, possuía um bigode do qual se orgulhava bastante, usava jóias no pescoço e nos dedos da mão esquerda, além de um chamativo dente de ouro. Uma clássica figura. Raramente dirigia. Quem fazia essa função era Albertino, o motorista braço direito que viera do Nordeste. Nesse dia, porém, o Dr. Arthur estava só. Deixou o carro preto importado do outro lado da rua e foi falar com zeca, josé e chico. Segurava uma sacola na mão direita.

- Muito boa noite, meus queridos amigos! Como vão? Animados para a chegada de mais um ano?- sem dar oportunidade para que alguém respondesse, o senhor continuou- Trouxe para cada um dos senhores deliciosas comidas preparadas especialmente por minha cozinheira. Ela é fenomenal. Sempre...

- Pode levar de volta- interrompeu zeca.

Surpreendente. Silêncio. Clima tenso.

- Você só pode estar sóbrio, zeca!- gritou josé.

- Tudo bem, vocês comem, eu não.

Claramente irritado, o Dr. Arthur lançou a ira contra o ousado mendigo.

- Meu rapaz, você sabe com quem está falando? Sabe a quem está afrontando? Jamais alguém recusou ofertas minhas.

Com uma expressão serena, sem qualquer abalo ou receio da reação alheia, zeca insistiu na atitude.

- Fico feliz em ser o primeiro. Pode dividir a minha parte com eles. Se preferir, coma.

Óbvio, a ira do Dr. Arthur aumentou. Estava realmente nervoso, indignado, incrédulo. Neste momento, o Sr. João, dono de uma padaria, se aproximou. Cumprimentou um por um apertando pacientemente as mãos.

- Uma reunião na praça, e na véspera do ano novo...

- Meu caro João- disse o Dr. Arthur- este indigente está me afrontando- apontou para o zeca- Recusou-se a aceitar a comida que trouxe para ele. Quer aparecer, mas com a barriga vazia, embora cheia de cachaça.

Pacificador, o Sr. João, sempre calmo, sorridente e gestos comedidos, considerou a situação um engano. Para ele, tudo iria se resolver, já que o Dr. Arthur, "homem de bom coração", trouxera o alimento exatamente para agradar aos "queridos senhores".

Aqueles minutos foram suficientes para atrair uma certa quantidade de curiosos que transitavam pela praça. Uma jovem estagiária de um canal de TV local voltava do trabalho quando assistiu à cena. Não teve dúvida, ligou para a redação e relatou o que presenciara. Em muito pouco tempo, um dos dois carros da emissora estava lá para ameaçar a reputação do poderoso político.

O Dr. Arthur já estava numa armadilha. Não poderia recuar. Teria que, sozinho, enfrentar e convencer o zeca.

- Ah, entendi. Você deve estar alimentado, não é meu filho? Tudo bem, vou deixar a comida ai. Depois, uma hora ou outra você come.

- Você não está entendendo muito bem- disse zeca- Não quero esse pote. Você já me alimentou.

- A última vez que lhe trouxe comida foi semana passada, no Natal. Ok, diga o que deseja e eu mando a minha empregada preparar. O que quiser, pode dizer.

- Já estou cheio, mas agradeço de coração- disse com um ar irônico.

Era muito para alguém tão nobre e socialmente relevante como o Dr. Arthur. Diante de uma certa multidão, ele estava nitidamente desconcertado, contrariado. Ele perguntou se alguém havia levado alimento aos moradores de rua. Ninguém respondeu. De fato, ninguém o fizera.

Ele lembrou do padre. Sim, talvez ele, e provavelmente ele havia levado algo. Mandou chamar o bendito padre Zinho para tirar de vez a dúvida. Uma senhora frequentadora das missas lembrou que o padre deveria estar ocupado, "faltando tão pouco para a virada do ano."

O Dr. Arthur não quis saber. Manteve-se firme. Em pouco tempo, Zinho, quase obrigado, estava na praça. Negou ter visto zeca, josé e chico nos últimos dias.

- Arthur, foi você mesmo quem me alimentou- afirmou zeca, com firmeza.

- Como disse, meu jovem?

- Estou muito bem alimentado, mas não com comida.

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