"Melhor do que ler a coluna do Veríssimo num domingo ensolarado de manhã, esperando a chegada do café para pular na piscina, é ler o Letras e Harmonia a qualquer hora em qualquer lugar", Zé- operário.



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domingo, 10 de maio de 2009

Por trás da cortina (parte 1)

A palestra estava chata, chatíssima, monótona, maçante. Um porre, tosca mesmo. Caco já não sabia mais o que fazer. Olhou para o relógio: 20:14. O evento nem havia chegado à metade. Muito tempo depois , voltou a conferir a hora: 20:17. “Não é possível”, pensou, "deve ter havido algum fenômeno físico que retardou o tempo. Logo agora? Por que não fim de semana, sábado à noite, domingo à tarde na hora do churrasco?”.

Caco, então, resolveu tentar prestar atenção à palestra. O senhor Amadeu discursava a respeito da linguagem dramática inserida no jornalismo carioca dos anos 60.

- Como podemos perceber através dos presentes periódicos, a inserção de uma configuração devidamente elaborada com técnicas pertinentes era uma prática...

Zzzzzz... Caco não se aguentava na cadeira. O tremor das pernas e os constantes movimentos com os dedos denunciavam a inquietação. Reparou ao redor e viu um mar de gente também dispersa. Sentado numa das últimas fileiras do lado direito do auditório, percebeu Erika, uma das mais lindas e cobiçadas meninas da universidade, mascando chiclete e fuçando no celular. Bob, companheiro de trabalhos e parceiro de colas nas provas de teoria, conversava com amigos, que olhavam e apontavam para um grupo de moças do lado oposto. Elas correspondiam.

Nem Severino, o coordenador do curso de jornalismo, prestava atenção às palavras do senhor Amadeu. Severino travara uma constante e intensa briga contra o sono, este prestes a vencer. A cabeça dele ia e vinha, vinha e ia, como um ioiô, uma gangorra.

Só o próprio Amadeu, digo, senhor Amadeu mostrava-se interessado naquele encontro. De fato, ele nem percebera a reação, ou falta dela, da platéia. Ele é daqueles professores que dão aula para si mesmo, ignorando a comunicação com o público. Ficava tão, mas tão empolgado com os próprios estudos, que nem se dava conta de que deveria estabelecer uma relação mais envolvente com os ouvintes, ou, no caso, candidatos a ouvintes.

Caco adoraria profundamente ir embora, ligar para a namorada, tomar umas cervejas com os amigos e conversar pelo MSN, mas precisava estar mais próximo do Amad... senhor Amadeu. Ele seria o orientador da monografia de Caco, que já começava a preocupar-se com o trabalho.

Para ficar um pouco mais esperto, Caco foi ao banheiro lavar o rosto. E depois tomar um refrigerante na lanchonete do campus. Lá, jogou umas conversas fora com outros estudantes. Após 20 minutos, retornou para o auditório, de onde saía o professor e palestrante, uma figura clássica, folclórica: sisudo, barba e cabelos brancos e longos, grandes óculos, roupas um tanto anti-quadras.

Surpreso, Caco cumprimentou o senhor, estendendo-lhe a mão. Com as mãos cheias de livros, pasta e folhas avulsas, o professor correspondeu com um “olá, meu jovem” e ofereceu-lhe o pulso, para que a situação não ficasse desconfortável.

- Gostou da palestra, rapaz?

- Claro, professor! O assunto é mesmo bem intere...

Antes mesmo de Caco completar a resposta, o senhor Amadeu seguiu em frente. Desculpando-se, como sempre educadíssimo com todos, disse estar “muitíssimo ocupado” naquele momento, pois precisava acessar uns e-mails e preparar as aulas da manhã seguinte. Caco insistiu. Foi atrás do futuro orientador para pegar mais informações que o pudessem ajudar a elaborar a monografia.

- O caso é que estou realmente enrolado durante a semana. Se puder, sábado terei um tempo. Pode ir ao escritório lá em casa, onde poderei ser mais útil a você. Este aqui é o endereço - o senhor Amadeu entregou o cartão dele antes de seguir adiante, iniciando uma marota conversa com Severino, já bem mais animado do que antes.

(continua...)

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